Ave atque Vale
(Olá e Adeus)
Bem, eu sei que isso é uma espécie de despedida. Mais um au revoir do que um adieu, mas, de qualquer maneira, é uma despedida. Esta manhã eu me desliguei da maioria das minhas conexões com o mundo exterior, pois tenho um trabalho a fazer. Preciso entregar um livro para os meus editores até o final de abril ou perderei minha alma e meus testículos.
Algumas pessoas conseguem escrever com facilidade em quaisquer circunstâncias em que se encontrem. Em cima de uma árvore, no ônibus, em uma casa de madeira, em um café esfumaçado ou em uma praia tropical. Alguns não se importam com o barulho, distração ou um dia de intervalo. Eu, infelizmente, não sou assim. Preciso de paz, absoluta paz, uma agenda vazia e nenhuma distração. Entro em uma espécie de purdah, de reclusão eremítica onde há apenas eu, um teclado, e várias xícaras de café, tudo isso em uma sala com cortinas impedindo a entrada da luz. Acrescentaria tabaco como uma constante e necessária companhia, mas parei de fumar há uns dois anos e meio, portanto, não terei o prazer de ter um cachimbo preso entre os dentes enquanto procuro pela mot juste flaubertiana.
Tenho um único compromisso em Londres perto do fim de janeiro e em Barcelona mais ou menos um mês depois. Fora isso, estarei totalmente excluído do mapa da existência humana. É assim que deve ser.
Tudo isso é uma maneira de dizer, é claro, que a minha fonte no Twitter irá secar durante esse período. Não há dúvida de que isso será um alívio para alguns, mas eu não estou tão mergulhado em falsa modéstia a ponto de não perceber que possuo leais seguidores que irão emitir longos e altos gritos de “Nããããããããão!” e que ficarão pesarosos e tristes. Mas espero que eles entendam que isto é a) imperativo b) temporário. Eu retornarei.
E do que se trata esse livro? Vinte anos atrás, escrevi o primeiro volume da minha autobiografia Moab is My Washpot, que é essencialmente as memórias de minha infância e adolescência, e termina quando nosso herói é libertado da prisão e planeja, com um ano de condicional ainda a cumprir, pleitear uma vaga na universidade. O livro que devo agora escrever irá continuar a partir daí. Se será cronológico ou temático, na primeira ou na terceira pessoa, não tenho ideia. Essa é a aventura, se assim posso dizer, que está diante de mim. A solidão do ato de escrever, ou ao menos a minha maneira de escrever, é total. Outra semana, o excelente @wishdasher enviou uma citação de Paul Tilich: “A linguagem criou a palavra ‘solidão’ para expressar a dor de estar sozinho, e a palavra ‘solitude’ para expressar a glória de estar sozinho”. Se a minha reclusão será dolorosa ou gloriosa é esperar para ver. Aceitem minhas desculpas e, acreditem, ninguém anseia mais do que eu pelo dia em que poderei estar de volta entre vocês.

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